Carta de Matthieu Ricard a Kofi Annan
26 Abril, 1998 – Para o Secretário-Geral Kofi Annan – Nações Unidas, Nova Iorque
Sua Excelência,
Se a Declaração dos Direitos Humanos é universal, por favor não exclua o Tibete. Se não é universal, por favor diga-o.
Em Genéva, a Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas discutiu durante todo o dia, ao longo de várias semanas, as detenções arbitrárias, as limitações da liberdade e outras graves violações dos direitos humanos que se verificam na Nigéria, no Sudão, no Kossovo e noutros locais.
Os países membros decidiram não falar sobre as trágicas violações dos direitos humanos no Tibete. Este é um exemplo completamente desanimador de dois pesos e duas medidas. São os Tibetanos seres menos humanos que os outros?
Os EUA e os países Europeus disseram que a situação dos direitos humanos na China melhorou. Quatro mil e quinhentas penas de morte foram aplicadas num ano e milhões de pessoas ainda trabalham arduamente nos campos de trabalho apelidados de laogai. A libertação de alguns poucos dissidentes mediáticos é um acontecimento demasiado pequeno para encobrir tanto sofrimento.
Se a ocupação chinesa do Tibete é legítima, porque razão incomoda tanto a China que esta questão seja discutida nas Nações Unidas? Se não é legítima, não é o papel das Nações Unidas fazer justiça?
Mary Robinson, a Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, disse que irá abordar a questão do Tibete quando for visitar a China no próximo outono. A esperança de amenizar um regime totalitário é uma excelente ambição mas muitos já o tentaram em vão.
A verdadeira questão é que as Nações Unidas deveriam examiner o estatuto do Tibete à luz da carta das Nações Unidas e de acordo com a Lei Internacional. Palavras de conforto são uma forma de apoio muito fraca para uma nação moribunda.